Sempre foi clara a dominação téorica marxista dentro da academia brasileira. Nunca foi omitida a situação paradoxal de uma elite que se considera marxista na teoria e apenas nela. Acredito que durante muito tempo isso foi visto como, no máximo, uma pequena incoerência ou um problema de pequena importância. O que de fato é uma visão bem marxista estabelecer separações da realidade, instâncias, estruturas superiores e inferiores, teses e antíteses, enfim, tratar a realidade prática e a teórica como coisas separadas, como fórmulas simples de se apreender, desde que, você possua a bibliografia e linguagem necessários.
Mas não é esse o foco, pois o marxismo já é um paradigma ultrapassado e em franca decadência. A discussão acadêmica atual é o pós-estruturalismo (no mínimo) e é ai que recai minha atenção. Embora eu seja um pesquisador iniciante neste campo, são vários os ecos de outros pesquisadores, filósofos, antropólogos etc, que notam no afastamento do pensamento marxista de 80, uma aproximação das novas teorias epistemológicas com o ideário anarquista.
Para não ser repetitivo, insiro aqui um trecho do livro de David Graeber, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista, ainda não traduzido para o português: "
Por que existem tão poucos anarquistas na academia?
Esta é uma questão pertinente já que enquanto filosofia política, o anarquismo está realmente explodindo neste momento. Anarquistas ou movimentos inspirados pelo anarquismo estão crescendo em todos os lugares; os princípios tradicionais do anarquismo - autonomia, associação voluntária, auto-gestão, ajuda mútua, democracia direta - estão na base organizacional do movimento anti-globalização, agindo da mesma forma em movimentos radicais em todos os lugares. Revolucionários no México, Argentina, Índia e demais lugares, têm crescentemente abandonado até mesmo a possibilidade de falar em tomar o poder e começaram a formular ideais radicais distintos sobre qual seria o significado da revolução. A maioria, admitidamente ficam tímidos em empregar a palavra “anarquista” em suas práticas. Mas como Barbara Epstein recentemente colocou, o anarquismo de longe tomou o lugar do marxismo nos movimentos sociais dos anos 60 e todos aqueles que não se consideravam anarquistas perceberam que teriam que posicionar com relação ao anarquismo e foram atraídos por suas ideias".
Porém, se há esse movimento de vinculação dos princípios anarquistas nos movimentos sociais e mesmo intelectuais, por parte dos libertários, há o movimento contrário, baseado geralmente em duas premissas: 1) a auto-intitulação e 2) a filiação histórica (clássica). Notem que o argumento histórico e uma questão metodológica do marxismo, e por isso esse argumento é típico dessa classe, questão que muda de aspecto sob a ótica do estruturalismo, por exemplo.
Essas duas argumentações, no entanto, não são assim tão fatídicas. Primeiro que a auto-intitulação nunca foi pré-requisito para associações. Thoreau nunca se denominou anarquista, mas ninguém o exclui do hall anarquista após ler A Desobediência Civil e milhares de outros exemplos que poderia citar aqui, assim como Marx afirmou que não era marxista. O que afilia alguém a um movimento ou grupo são os outros teóricos. Inclusive, releituras por vezes deslocam um autor para outro local. Augusto dos Anjos, é um simbolista ou um pré-modernista? Isso depende do crítico literário que você usar como referência.
A questão da afiliação histórica é outro embuste. Primeiro que todo olhar histórico é enviesado, segundo que, usando um termo Foucaultiano, as leituras históricas não trazem em si a verdade, mas sempre "um desejo de verdade". Além do mais a epistemologia anarquista se atualiza através de suas práticas, e por não ser um corpo teórico estático, se revoluciona a todo momento. Quando se argumenta: mas Foucault não acreditava na destruição do poder ou Nietzsche não acreditava na eficácia dos ataques físicos aos símbolos de poder; são distinções sobre a argumentação clássica do anarquismo: o anarquista deve ser revolucionário, deve votar nulo, não deve se organizar, não deve eleger delegados, não deve participar de votações, etc. Essas atitudes consideradas intrinsecamente anarquistas não passam de uma visam tradicional de anarquismo, que foi cristalizada especialmente por marxistas. Exemplo prático: a célebre coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, porta de entrada para esta discussão para muitos jovens, possui uma edição para cada "sistema político", incluindo um sobre anarquismo, mas seu autor é um acadêmico marxista.
Além do mais, anarquistas MUITAS vezes não se denominam anarquistas. Malatesta se denominava comunista libertário. Woodcock, na história do anarquismo, encontra raízes em movimento e grupos não denominados anarquistas. Godwin não se considerava anarquista (o termo ainda nem havia sido cunhado por Proudhon). Muitos se consideravam coletivistas, mutualistas, individualistas ou ainda no final do século XX, situacionistas, auto-gestionários ou simplesmente libertários.
Raros são os intelectuais assumidamente anarquistas, como Peter Lamborn Wilson "Hakim Bey" historiador, escritor e poeta; e Noam Chonsky, considerado o mais influente intelectual vivo em 2005 pela revista britânica
Prospect,
A questão novamente culmina no que se entende por anarquismo. Porque pessoas e intelectuais têm tanto medo em assumir para si este signo? Mais uma vez acredito que o problema está, não na má compreensão do termo, mas por uma compreensão anacrônica, desatualizada tanto por parte dos opositores quanto dos anarquistas. É por isso que pouco se vê o anarquismo em nossa sociedade "capitalista", mas basta uma mudança na perspectiva do olhar, para vermos atuantes e disseminados, as tonalidades deste conceito que se renova a todo instante, sem deixar de ser-se.