domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Anarquismo allpolítico

Para Marcio Bustamante
 
Caro colega do C.I.S.C.O, que bom que você gostou do texto. E melhor ainda é o fato de você ter deixado um questionamento. Afinal, o questionamento é quase sempre verdadeiro enquanto a certeza é sempre temporária.

O ponto que você levantou, o hiato que existe entre o anarquismo clássico e o contemporâneo, ou ainda entre a anarquismo coletivo e o anarquismo individulista é, ao meu ver, o grande questionamento que precisamos, como anarquistas, resolver. E não digo resolver para escrever textos teóricos ou ganhar discussões com marxistas, rs! Mas para encararmos as contradições do nosso dia-a-dia mesmo.

Entendo o que parece que quando pensamos no anarquismo como estilo de vida ou auto-libertação, parece que nos esquecemos da miséria na África, da destruição da Amazônia pelo capitalismo ou as mortes causadas pela polícia no bairro de periferia aqui perto.

Mas por outro lado, como podemos lutar pela liberdade dos oprimidos, quando somos moralmente, sexualmente e economicamente oprimidos?

Entenda, não estou rechaçando nenhuma postura, mas acredito que mudar sua postura e suas relações com os outros (próximos) é também um ato político. Hoje estava assistindo "O grupo Baader-Meinhof" e estava pensando no que a idéia da luta de classes gera, mesmo quando é defendida pela esquerda. Mas você tem razão, precisamos pensar como movimento social organizado para sermos mais livres individualmente. Gosto quando Bakunim diz que a liberdade do outro amplia minha própria liberdade. É por isso que devemos querer a liberdade do outro também. Esse é o caminho que faço, do indivíduo para o coletivo.

O que penso é que os anarquistas precisam agora pensar o que é o anarquismo. Vejo muita gente defendendo que o anarquista tem que votar nulo ou não pode fazer parte de grupos/entidades, mas o mesmo assiste filmes de holywood, não recicla o lixo ou é preconceituoso. Pra mim, precisamos romper com essa noção de político como uma camada de abstração superior, aérea, separável, e deixá-la escorrer e fluir em nosso cotidiano. Tenho certeza que o pessoal do CISCO gasta um tempo escrevendo pro blogue enquanto poderia estar fazendo ""algo mais útil"". É essa dedicação por compartilhar o que se tem de melhor, respeitando a liberdade do outro, que define o anarquista, muito mais do que ele pichar muros, votar nulo ou ler Hakim Bey.

Meu caro, espero que você não pense que estou respondendo sua pergunta, apenas estou pensando sobre ela. A resposta a esse paradigma e outros demais do anarquismo, eu espero ir desvendando junto com vocês do CISCO.

Forte abraço!
Saudações libertárias.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Por uma epistemologia anarquista

Sempre foi clara a dominação téorica marxista dentro da academia brasileira. Nunca foi omitida a situação paradoxal de uma elite que se considera marxista na teoria e apenas nela. Acredito que durante muito tempo isso foi visto como, no máximo, uma pequena incoerência ou um problema de pequena importância. O que de fato é uma visão bem marxista estabelecer separações da realidade, instâncias, estruturas superiores e inferiores, teses e antíteses, enfim, tratar a realidade prática e a teórica como coisas separadas, como fórmulas simples de se apreender, desde que, você possua a bibliografia e linguagem necessários.

Mas não é esse o foco, pois o marxismo já é um paradigma ultrapassado e em franca decadência. A discussão acadêmica atual é o pós-estruturalismo (no mínimo) e é ai que recai minha atenção. Embora eu seja um pesquisador iniciante neste campo, são vários os ecos de outros pesquisadores, filósofos, antropólogos etc, que notam no afastamento do pensamento marxista de 80, uma aproximação das novas teorias epistemológicas com o ideário anarquista.

Para não ser repetitivo, insiro aqui um trecho do livro de David Graeber, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista, ainda não traduzido para o português: "Por que existem tão poucos anarquistas na academia?
Esta é uma questão pertinente já que enquanto filosofia política, o anarquismo está realmente explodindo neste momento. Anarquistas ou movimentos inspirados pelo anarquismo estão crescendo em todos os lugares; os princípios tradicionais do anarquismo - autonomia, associação voluntária, auto-gestão, ajuda mútua, democracia direta - estão na base organizacional do movimento anti-globalização, agindo da mesma forma em movimentos radicais em todos os lugares. Revolucionários no México, Argentina, Índia e demais lugares, têm crescentemente abandonado até mesmo a possibilidade de falar em tomar o poder e começaram a formular ideais radicais distintos sobre qual seria o significado da revolução. A maioria, admitidamente ficam tímidos em empregar a palavra “anarquista” em suas práticas. Mas como Barbara Epstein recentemente colocou, o anarquismo de longe tomou o lugar do marxismo nos movimentos sociais dos anos 60 e todos aqueles que não se consideravam anarquistas perceberam que teriam que posicionar com relação ao anarquismo e foram atraídos por suas ideias".

Porém, se há esse movimento de vinculação dos princípios anarquistas nos movimentos sociais e mesmo intelectuais, por parte dos libertários, há o movimento contrário, baseado geralmente em duas premissas: 1) a auto-intitulação e 2) a filiação histórica (clássica). Notem que o argumento histórico e uma questão metodológica do marxismo, e por isso esse argumento é típico dessa classe, questão que muda de aspecto sob a ótica do estruturalismo, por exemplo.

Essas duas argumentações, no entanto, não são assim tão fatídicas. Primeiro que a auto-intitulação nunca foi pré-requisito para associações. Thoreau nunca se denominou anarquista, mas ninguém o exclui do hall anarquista após ler A Desobediência Civil e milhares de outros exemplos que poderia citar aqui, assim como Marx afirmou que não era marxista. O que afilia alguém a um movimento ou grupo são os outros teóricos. Inclusive, releituras por vezes deslocam um autor para outro local. Augusto dos Anjos, é um simbolista ou um pré-modernista? Isso depende do crítico literário que você usar como referência.

A questão da afiliação histórica é outro embuste. Primeiro que todo olhar histórico é enviesado, segundo que, usando um termo Foucaultiano, as leituras históricas não trazem em si a verdade, mas sempre "um desejo de verdade".  Além do mais a epistemologia anarquista se atualiza através de suas práticas, e por não ser um corpo teórico estático, se revoluciona a todo momento. Quando se argumenta: mas Foucault não acreditava na destruição do poder ou Nietzsche não acreditava na eficácia dos ataques físicos aos símbolos de poder; são distinções sobre a argumentação clássica do anarquismo: o anarquista deve ser revolucionário, deve votar nulo, não deve se organizar, não deve eleger delegados, não deve participar de votações, etc. Essas atitudes consideradas intrinsecamente anarquistas não passam de uma visam tradicional de anarquismo, que foi cristalizada especialmente por marxistas. Exemplo prático: a célebre coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, porta de entrada para esta discussão para muitos jovens,  possui uma edição para cada "sistema político", incluindo um sobre anarquismo, mas seu autor é um acadêmico marxista.

Além do mais, anarquistas MUITAS vezes não se denominam anarquistas. Malatesta se denominava comunista libertário. Woodcock, na história do anarquismo, encontra raízes em movimento e grupos não denominados anarquistas. Godwin não se considerava anarquista (o termo ainda nem havia sido cunhado por Proudhon). Muitos se consideravam coletivistas, mutualistas, individualistas ou ainda no final do século XX, situacionistas, auto-gestionários ou simplesmente libertários.

Raros são os intelectuais assumidamente anarquistas, como Peter Lamborn Wilson "Hakim Bey" historiador, escritor e poeta; e Noam Chonsky, considerado o mais influente intelectual vivo em 2005 pela revista britânica Prospect,

A questão novamente culmina no que se entende por anarquismo. Porque pessoas e intelectuais têm tanto medo em assumir para si este signo? Mais uma vez acredito que o problema está, não na má compreensão do termo, mas por uma compreensão anacrônica, desatualizada tanto por parte dos opositores quanto dos anarquistas. É por isso que pouco se vê o anarquismo em nossa sociedade "capitalista", mas basta uma mudança na perspectiva do olhar, para vermos atuantes e disseminados, as tonalidades deste conceito que se renova a todo instante, sem deixar de ser-se.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O anarquismo existe, acreditem!

Pra muita gente, discutir anarquismo é falar sobre ficção, literatura, baboseira ou pura viagem. Para a maioria das pessoas anarquismo é a ausência de poder, ou alguma outra redução simplista, e acredita-se que o anarquista viva na esperança de uma realidade inviável, que jamais chegará. O anarquista é um ingênuo, pois um estado efetivo de anarquia não existe (não vamos considerar as Zonas Autônomas de Tempo).


Bem, se anarquia não existe, existem no entanto anarquistas e anarquismo. Fato inevitável. Se existem pessoas com ideais parecidos, que assumem para si o mesmo conceito / definição, é porque existem na realidade presente, essas características e ideais que o anarquista gostaria de ver expandidos, seja fraternidade, coletividade, compartilhamento, individualidade, liberdade, etc. Nós só cremos que há liberdade plena, porque há no presente uma gama de situações que permitem "mais liberdade" ou "menos liberdade". A liberdade existe, não é uma invenção.

A liberdade total, como prevê o anarquismo clássico, de fato, não existe, é uma utopia. Acredita-se assim que o anarquista seria uma espécie de construtor idealista que passa a vida toda juntando material e dinheiro para construir seu paraíso, para descobrir mais tarde que gastou todo seu tempo numa tarefa impossível que não lhe dará nenhum resultado. Talvez muitos tenham pensado exatamente dessa forma especialmente os anarquistas marxistas (aqueles que também acreditaram na revolução, na dialética, no materialismo histórico). Mas alguns anarquistas, utilizam-se da utopia da liberdade total como conceito motivador. Anarquistas que desejam a liberdade total, mas descrente da questão revolucionária, satisfazem-se com migalhas de liberdade. Exatamente, pequenos pedaços de liberdade. Não desejamos mais a construção etérea de um paraíso, mas as ferramentas e materiais, que conquistamos diariamente, aos poucos, e são tão uteis para a construção de possibilidades. Possibilidades cada vez mais amplas de liberdade para o agora. Assim temos em um só movimento, o trabalho e nosso salário.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A superioridade de Nietzsche e a superioridade nazista

Nietzsche foi e, por vezes ainda é, relacionado ao nazismo ou à bases ideológicas deste pensamento. É que associa-se o seu desejo de superação de si (do homem) para aquilo que está adiante, além do homem (o super-homem). Em Nietzsche realmente há uma vontade de ser grande, de poder/potência, de superação, de vitória. Mas isso não se trata de uma competição linear darwiana, onde o forte sobrepuja o fraco, onde a vitória é do que se mantém, em oposição ao que é aniquilado. Isso é como normalmente entendemos: o que vive e o que morre, o que vence e o que perde, o guerreiro vitorioso e o perdedor, deus vencendo o diabo. Ou seja, nosso parâmetro para a determinação de nossa superioridade é um referente externo, acima ou abaixo de nossa escala de valores individual.

No entanto, a superioridade nietzscheniana é de si para si, ou de si para além-si, um estado virtual que está acima de nossa posição em nossa escala de valores individual. Ou seja, é uma projeção, um calculo partindo da situação atual recalculado no tempo-espaço. Ou seja, uma escada de 90 graus. E para isso, é preciso nessa subida totalmente vertical, não poder olhar ao lado, em busca de comparação com o outro. Afinal, as escalas de valores são individuais, totalmente subjetivas. Assim, o acima de si do outro, pode seguir uma direção diferente da nossa, sem que deixe de ser um acima de si. Afinal, nossa projeção de superação se baseia num calculo da dada realidade numa perspectiva específica e, sendo assim, cada pessoa tem sua base de calculo distinta uma das outras.

É entendendo assim (na verdade existem diversos pontos que podem ser considerados, mas acho este um bom ponto de partida), que vejo uma enorme distância entre a superioridade de ideologias totalitarias e a superioridade de Nietzsche. Enquanto uma é discriminatória para com o outro, a outra é revigorante apenas para si.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Correntes - os absurdos do cotidiano

É estranho pensar que uma corrente, vários elos de material resistente ligados linearmente, possa ser tanto um símbolo de força e cooperação, quanto de prisão, de impossibilidades.

Esse blogue está quase abandonado, mas cada vez que retorno, existe um comentário que me anima. Através do último, conheci o blogue do coletivo C.I.S.C.O, com temática semelhante a este. Lendo a descrição, descobri que, assim como minha experiência, os integrantes do blogue possuiam um grupo que se encontrava regularmente (um coletivo libertário) e por força maior, teve que se desintegrar "por motivos de força maior, leia-se: trabalho, necessidade de sobreviver e outros absurdos do cotidiano". Mas o que se desintegra, não desaparece, cada pedaço se espalha em busca de integrar-se em novos modelos orgânicos. A morte é necessária para a vida, instaurando entre o hiato, a ressureição.

O tempo. Entre o estudo para tentar o mestrado daqui um mês e o horário do almoço para correr para o trabalho, em meia hora "rabisco" este post. E voltando ao abandono do meu blogue, não é por falta de tempo ou amor à causa, mas por causa dos "absurdos do cotidiano". E é contra a ditadura do cotidiano, que o anarquistas comtemporâneo precisa lutar. Nada contra os mais inflamados, mas na minha lista de preocupações não consta mais salvar o mundo. Aliás, será que ele quer ser salvo? Quem é que pode me dar a resposta pelo mundo todo?

Porém, se ele quer, não tenho forças para isso. O que faço é me render aos absurdos do cotidiano (quem pode resistir?), porém contra-atacando com amor pela vida. Amor pela minha vida, que consiste em sempre procurar as brechas e frestas do cotidiano, para lançar sobre ele poemas beats, planos de Copolla, instalações de GNU/Linux mundo a fora.

Estarmos acorrentados jamais nos matará. Poderemos sempre explorar nosso campo, tocar a terra, receber o orvalho, cantar hinos de amor ou guerra, escrever panfletos e pornografia, viajar sem o corpo e, no início de cada noite, roermos com dor e êxtase, os elos mais fracos.

sábado, 18 de abril de 2009

O indivíduo e sua fome de liberdade

"A questão é: como os indivíduos maximizam a liberdade sob as situações nos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora"
Hakim Bey, em entrevista para High Times Magazine


Precisamos fazer aqui uma distinção grande entre o anarquismo clássico e o contemporâneo. Se temos uma linha coletivista, de grupos, que passa por Proudhon, Bakunin, Malatesta e outro clássicos, visto como um movimento político, existe uma vertente individualista, que perpassa por Max Stirner, Nietzsche e outros pensadores modernos.

Durante muito tempo, e para muitos pessoas ainda, o anarquismo é visto e entendido como um movimento político, assim classificado geralmente por políticos e acadêmicos marxistas, que dentro das limitações de sua própria teoria e método, reduzem o termo anarquismo, como qualquer outro, à questões econômicas, através da Luta de Classes. Bem, essa história todos já vimos e ouvimos milhares de vezes, a frase de Marx em Teses Sobre Feuerbach "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras, enquanto que o objetivo é mudá-lo", mostra que não só o mundo não mudou drásticamente, como o pensamento dos marxistas e neo-marxistas, que ainda acreditam que o mundo mudará com uma revolução.

O fato é que o anarco-individualismo, não sendo um movimento político que busca uma revolução, que necessita da força coletiva; pode ser visto como uma filosofia de vida, que se revoluciona a todo momento, por si só, onde a cooperação do outro potencializa, mas nunca impossibilita.

Hakim Bey usa a definição Anarquismo Ontológico, ou seja, o desejo de liberdade inerente do ser. Assim, todos temos o desejo de liberdade, embora alguns busquem a expansão da própria liberdade, através do cerseamento de outra. Todos fazem isso! Então qual seria a distinção entre o anarquista e o capitalista ou socialista? Acredito que o fator esteja justamente na forma de como se manifesta essa fome pela liberdade. Enquanto alguns almejam obter muito poder para poder realizar todos os seus desejos, outros vêm nesta atitude, uma outra forma de cadeia, já que obter poder, exige uma alta demanda de preocupações para se manter com o/no poder.

Porém, um anarquista, (acredito eu, que não sou porta-voz de nada, além de mim), acredita na sinergia, ou seja, que a cooperação de diversas partes, produz mais energia do que a soma independente dessas partes. Assim, no mundo de hoje, o anarquista percorre, tanteando e experimentando, situações e relações onde possa aumentar sua liberdade.

O anarquista não precisa estudar os clássicos, a historicidade do movimento, seus ideais e metas, teses, nem nada disto, embora tudo isso seja muito enriquecedor. O anarquista precisa tão somente desejar expandir ao máximo sua liberdade, e crer que a melhor forma de fazê-lo é possibilitando a liberdade do outro, livrando-se assim do jugo do poder, e da possibilitado de ser degolado enquanto dorme, por outros famintos de poder.

Quer dizer que basta apenas isso para ser um anarquista? A resposta mais adequada seria: sim. Ler os clássicos, estudar a teoria? Mas delimitar o anarquismo, não é exatamente uma tentativa de apropriar-se do termo? E para que delimitar algo que desejamos que seja cada vez mais amplo, digerido, simples, comum a todos? Se não "abrimos mão" da Verdade, não será muito mais difícil abrir mão da propriedade privada?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Anti-definição de anarquismo

Mas não serei verdadeiramente livre apenas porque quero sê-lo, pois liberdade é algo que não posso fazer, nem criar; posso apenas desejá-la..."
Max Stirner,
em "O Ego e o que a ele pertence"

Falar sobre anarquismo quase sempre se constitui num erro: sendo o anarquismo o objeto de estudo, a primeira coisa que nossa mente ocidental cientificista se apressa a fazer é delimitar e defi­nir esse objeto. Definir o anarquismo é o maior golpe que se pode desferir contra ele. E se é ine­vitável que muitos chegam ao anarquismo ouvindo ou lendo alguma definição, para depois estabele­cer uma simpatia ao termo, é preciso, assim que se encontre uma maturidade mínima, esquecer sua definição, como quem cospe no prato que comeu, ou como diria Witengstein, chegando ao topo, li­vrar-se da escada que lhe levou até ali.

Aliás, definir o anarquismo tem sido uma pratica muito eficiente contra seu desenvolvimen­to e, por isso, muito utilizada pelos seus inimigos. Sejam os intelectuais de esquerda ou de direita, todos consideram o anarquismo como um movimento político, quando este na verdade é algo muito maior e muito mais importante.

Mas se a indefinição é condição existencial do anarquismo, este também é e sempre foi o cerne das críticas contra ele. Porém, se muitos dizem e ainda dirão que não se pode falar sobre algo tão incerto, que não possui uma definição concreta, verificada e comprovada; é preciso lembrar que nenhuma das ciências humanas e nem mesmo nas denominadas exatas, existe profundo consenso sobre seus objetos e métodos, surgindo daí diversas vertentes ou correntes. Sem contarmos ainda que, para uma maior sensação de homogeneidade ou consenso, a academia seleciona, de uma diversidade quase infinita de discursos, quais são os verdadeiros e válidos. Ou seja, se toda ciência estabelece seu cânone literário com seus autores e livros, não podemos esquecer daqueles tantos outros que são autores marginais ou ainda que se perderam nas areias do tempo, sem jamais deixar rastro na história. Isso sem considerarmos a situação atual da produção do saber acadêmico, onde alunos dão continuidade a sua iniciação científica da graduação em mestrados e doutorados, especializando-se cada vez mais em temas super-específicos, sem jamais conhecerem outras possibilidades teóricas. Isso sem contar, e é até ridículo levantar essa questão, que por mais próximo que seja o pensamento de um Saussure e de um Levi-Strauss, um aluno de letras jamais se interessará ou será motivado por seus professores a estudar um pouco de antropologia, ou ainda a ler um pouco de Freud ao pensar a Análise do Discurso, por ser aquela uma ciência de base para esta.

Assim, não há problema algum em termos em “anarquia” um conceito incerto e indefinido. Além do mais, como a física quântica já percebeu, assim como 0 e 8 são resultados concretos que podem ser entendidos e trabalhados, o aleatório também pode ser um resultado que se baste em sí, sem ser de fato coisa alguma, ou ainda ser ao mesmo duas coisas distintas ou ainda ser e não ser algo ao mesmo tempo. Esse ponto é crucial para entendermos o que Hakin Bey afirma sobre o caos: não uma impossibilidade de ordem ou uma mistura de ordens, mas uma multiplicidade de ordens distintas ocorrendo simultaneamente, mesmo aquelas que se anulam ou conflitam. Ou seja, o signo “caos” engloba em um único significado, todas as possibilidades. Embora todo esse pensamento pareça um silogismo, ou seja um pensamento vazio que tem sentido apenas dentro de seu enunciado, é a partir daí que podemos entender o anarquismo como um conceito vigorante e eficaz, uma libertação de fato e agora, não em um mundo que virá.

Bem, isso quer dizer que não temos como afirmar se alguém de fato é anarquista ou não? De fato, essa é uma questão importante, que deve ser abordada mais a frente.